Em seu lar, onde o rock, pagode e samba se entrelaçam livremente, Gui Ventura desenvolveu a sensibilidade musical que hoje embasa sua interpretação de Gilberto Gil. Em uma conversa exclusiva com a Vogue Brasil, o ator relatou: “Esse ambiente me proporcionou uma versatilidade e uma ampla musicalidade, refletindo a essência da obra de Gil; é preciso sentir a música profundamente.” Essa conexão intuitiva, mais do que técnica, fundamenta sua performance em GIL – Andar com Fé, a primeira biografia musical dedicada ao renomado compositor baiano, que está sendo exibida no Teatro Santander em São Paulo como parte das celebrações pelos dez anos do local.
Com direção de Miguel Falabella, textos de Newton Moreno e direção musical de Thiago Gimenes, o espetáculo conta com um elenco formado por 34 artistas. A história inicia-se com o exílio de Gil em Londres, um período marcante que precede seu retorno às raízes e à formação do artista. Embora Ventura tenha atuado recentemente em produções na televisão, como a série Senna e a novela Dona de Mim, ele observa que o musical apresenta um desafio diferente: “É um papel principal, repleto de subjetividade e complexidade”, afirmou. O artista também mencionou a rotina intensa de apresentações ao vivo, realizando oito shows por semana, o que impede qualquer tipo de repetição mecânica. “Cada apresentação ao vivo é única; tanto o público quanto nós estamos diferentes a cada dia, permitindo espaço para o imponderável.”
Para desenvolver seu personagem, Ventura mergulhou em entrevistas e documentários sobre diversas fases da carreira de Gil. O que mais o surpreendeu foi descobrir os primeiros passos do compositor: na adolescência, ele já criava jingles e sambas com uma maturidade notável, algo que Ventura sugere redescobrir no álbum “Gilberto 62”. Conhecer o Gil mais jovem, ainda longe da tranquilidade que caracterizaria sua carreira posterior, foi essencial em sua preparação. “Tendemos a vê-lo como uma divindade pela importância cultural e pela contribuição ao pensamento crítico brasileiro,” ponderou Ventura.
Para alcançar a essência do personagem, Ventura buscou primeiro entender a humanidade por trás do mito: um homem enfrentando sentimentos de ausência, amor e medo. Essa camada se materializa em cena através do diálogo entre Gil e o Tempo-Rei, um personagem representando a consciência do compositor maduro contemplando seu passado. Por meio desse recurso dramático, Ventura descobre “uma indignação própria de quem deseja aprender mas possui também um certo conhecimento acumulado.”
Além de ser compositor e cantor com seus próprios álbuns e singles, Ventura também encontrou na obra de Gil uma forma diferente de perceber a vida. “A produção dele é um relato muito claro sobre aquilo que lhe é precioso; ele amplia conceitos”, afirma. Segundo ele, essa habilidade se manifesta tanto em “Andar com Fé”, ao estender o conceito de fé além da esfera religiosa, quanto em “Drão”, ao transformar as ideias sobre amor e término em uma reflexão acerca da mudança. “Como criador, percebo alguém capaz de ser simples e complexo simultaneamente, criando profundidade.”
Seu álbum inaugural, Dois Lados, teve influências diretas dos trabalhos de Gil e Caetano Veloso, o que resultou em um convite para se apresentar no Festival de Tondela em Portugal nas comemorações dos 50 anos da Tropicália. Atualmente, segundo ele mesmo afirma, sua produção se relaciona menos com a estética tropicalista e mais com a liberdade que Gil demonstra ao refletir sobre seu próprio tempo sem esquecer suas raízes.
Ao falar sobre os ensinamentos da obra de Gil para o Brasil contemporâneo, Ventura ressalta o compromisso do compositor com a verdade acima da defesa de posições rígidas: “Essa busca pela verdade ao invés da luta para validar ideias fixas é essencial para restabelecer um diálogo saudável e respeitoso na sociedade.”


