A iniciativa de branding da Noruega no contexto esportivo global, marcada pela popular e autêntica "remada viking", conquistou grande notoriedade e gerou imitações ao redor do mundo. A apresentação dos atletas noruegueses como guerreiros nórdicos, uma civilização que floresceu, se expandiu e desapareceu misteriosamente há mil anos, fortaleceu a identidade nacional do país. Essa homenagem a uma ancestralidade tão remota contrasta com a imagem moderna da Noruega, reconhecida por ser uma nação pacífica, ordenada, igualitária e politicamente correta.
A Polêmica Moral em Torno da Celebração Viking
Embora os escandinavos sintam orgulho de sua herança viking, críticos destacam uma contradição significativa. O comentarista Gavin Mortimer, em um artigo para a Spectator, questionou o entusiasmo do New York Times em relação à seleção da Noruega, lembrando que os vikings eram conhecidos não apenas por sua maestria nos mares, mas também por práticas violentas como estupros, saques e escravidão. Entre os séculos VIII e XI, eles espalharam terror pela Europa, das Ilhas Britânicas até a Sicília, deixando um legado de brutalidade que incluiu a escravização de irlandeses e o massacre de grupos na Escócia, com aproximadamente um milhão de ingleses portando traços genéticos dos invasores.
Mortimer questiona se há um duplo padrão ao avaliar a história, indagando qual seria a reação do New York Times caso torcedores espanhóis decidissem recriar a "remada de Colombo". Essa comparação sugere uma seletividade na forma como figuras históricas são julgadas com base nos valores atuais, como o caso do explorador genovês – cujas estátuas têm sido alvo de derrubadas nos Estados Unidos.
Identidade Nacional Moderna e Marketing Esportivo
A campanha visual da federação de futebol norueguesa, onde jogadores aparecem caracterizados como vikings, foi uma estratégia brilhante. Inspirada possivelmente pelo jogador Erling Haaland, que já havia posado dessa maneira anteriormente, a produção teve o fotógrafo escocês David Yarrow à frente. Para garantir autenticidade, foram utilizados objetos como armas e escudos nórdicos em um cenário deslumbrante de fiordes sob um filtro cinza que conferiu um aspecto marcante às imagens. A participação do jogador Antonio Nusa, de origem nigeriana e totalmente alinhado ao conceito da campanha, destaca a modernidade dessa abordagem.
Considerar um milênio suficiente para contextualizar eventos históricos é crucial para evitar julgamentos baseados apenas nas normas contemporâneas – tanto para navegadores quanto para guerreiros nórdicos. A Noruega atual apresenta um PIB per capita de 105 mil dólares, sustentado pela exploração de petróleo no Mar do Norte e administrado com transparência através de um fundo soberano, resultando em um padrão de vida admirável.
Essa prosperidade contemporânea é frequentemente vista como uma justificativa para o desejo coletivo de se reconhecer como herdeiros dos vikings – embora essa celebração seja feita de maneira seletiva, ignorando os aspectos mais sombrios e violentos daquele período histórico. Tal abordagem permite à Noruega honrar sua trajetória histórica enquanto permanece conectada à sua identidade atual pautada em características positivas.


