As recentes concessões de Donald Trump ao Irã provocaram uma onda de indignação e perplexidade, especialmente entre veículos de comunicação de orientação conservadora nos Estados Unidos, como o New York Post e o Wall Street Journal. Ambos os jornais, que historicamente apoiaram Trump, publicaram artigos incisivos, caracterizando as ações do presidente como uma ‘retirada’ e um indicativo de fraqueza. A necessidade urgente de reabertura do Estreito de Ormuz teria levado à aceitação de meras promessas relacionadas às negociações sobre o programa nuclear iraniano.
As reações da mídia conservadora refletem sentimentos que muitos políticos preferem não expressar abertamente, temendo represálias do presidente. Contudo, esses descontentamentos circulam em segredo. Informações sugerem um descontentamento interno no governo, com figuras proeminentes como o Secretário da Defesa, Pete Hegseth, o Secretário de Estado, Marco Rubio, e o Diretor da CIA, John Ratcliffe, demonstrando ceticismo em relação ao acordo. O site Axios os classificou como ‘céticos’ dentro da administração, destacando suas preocupações e as ‘sérias dúvidas’ levantadas pelas agências de inteligência sobre a disposição do Irã em cumprir as exigências. Em contraposição, os negociadores especiais Steve Witcoff e Jared Kushner, além do vice-presidente JD Vance, manifestaram apoio explícito ao pacto.
Concessões e Cenários Inusitados
A situação se torna ainda mais peculiar para Israel, pois o acordo sugere que “os Estados Unidos ficam com basicamente nada”, conforme apontou Kovler. No contexto das forças regionais alinhadas ao Irã, os EUA saem em desvantagem: o pacto oferece proteção explícita ao Hezbollah no Líbano. Essa cláusula gera incertezas sobre como Trump planeja convencer o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu a aceitar essa nova realidade e retirar as tropas israelenses do sul do Líbano, onde combatem a milícia xiita armada pelo Irã.
Uma das declarações mais surpreendentes feitas por Trump recentemente foi sua sugestão de que a questão do Hezbollah deveria ser tratada pelo atual regime sírio, com elogios ao presidente Ahmed Al-Sharaa. A proposta de uma intervenção síria no Líbano evoca fantasmas históricos relacionados a ocupações e influências xiitas radicais, tornando difícil para muitos imaginar tal validação por parte do presidente dos EUA.
Vencedores e Perdedores do Acordo
A análise dos vencedores e perdedores deste acordo torna-se evidente ao observar quem está celebrando. Enquanto Irã e Hezbollah festejam a situação, outros grupos libaneses — incluindo cristãos e muçulmanos sunitas — veem suas esperanças diminuírem diante da ascensão dos radicais xiitas. Tanto israelenses da direita quanto da esquerda estão atônitos com o acordo, percebendo-o mais como uma capitulação do que uma mera derrota; isso pode ter sérias repercussões para Benjamin Netanyahu nas próximas eleições. A oposição iraniana, duramente reprimida ao longo dos anos, sente-se abandonada nesse novo cenário. Do lado americano pró-Israel, há uma fragmentação significativa entre aqueles que apoiam uma guerra impopular e os que defendem um acordo considerado excessivamente condescendente.
O Futuro e as Incógnitas
O sucesso desse acordo depende fundamentalmente da interrupção efetiva do programa nuclear bélico iraniano e da redução dos estoques de urânio enriquecido nos próximos 60 dias — um grande ‘se’, repleto de incertezas. Em meio a previsões sobre a queda do preço do petróleo para 60 dólares por barril, Trump destacou os benefícios econômicos decorrentes da assinatura do acordo em Versalhes: “O petróleo caiu, as ações subiram”. O local escolhido para a assinatura traz à tona um simbolismo histórico significativo para este polêmico pacto.


